quinta-feira, abril 14, 2005

Às vezes voo alto...

A todos os minutos mais um avião levanta voo rumo ao seu destino. Em Lisboa, São Paulo, Madrid, Moscovo, Nova Iorque, Melbourne, Tóquio, Luanda. Em algum lugar do planeta mais um avião parte cheio de pessoas. Alguns vão passear, outros trabalhar, há aqueles que vão visitar alguém, os que vão mudar de país. Todos têm um objectivo e um destino traçado.
Eu, aqui, no cantinho do meu quarto também voo. Acompanho todos os aviões e todos os passageiros.
Conheço pessoas que vão agora num avião com destino ao paraíso, e eu também queria ir mas vou ter de esperar mais um tempo para chegar de novo a minha vez. Por enquanto, limito-me a olhar o céu e a voar bem alto com os meus pensamentos e com eles vou...

Vou subir a palcos por todo o país que já conheceram os meus pés.
Vou visitar a minha família que está longe e tem novidades para mim.
Vou encontrar-me com pessoas especiais guardadas no meu coração.
Vou visitar locais que conheço e que não esqueço nunca.
Vou beijar a face de alguns amigos que embora perto, estão de facto longe.
Vou subir ao céu e descer de novo à terra para acordar no meu quarto, em frente ao computador e ver que, infelizmente, ainda não tenho o dom de saber e poder voar.

quarta-feira, abril 13, 2005

Amizade

É tão bom sentir e saber que temos pessoas junto de nós que nos amam e com as quais podemos contar sempre. O mundo parece menos complicado, os problemas parecem mais pequenos, a solidão não existe...
Poder encontrar um sorriso e palavras bonitas todos os dias junto das minhas amigas é um presente que recebo com muita alegria. Fico também eu com um sorriso e com ânimo para o resto do dia!
Para todas um sorriso daqueles gigantes acompanhado de uma gargalhada sonora.


terça-feira, abril 12, 2005

«Cinzas do Passado»

Foi a primeira vez que tive contacto com um livro deste género - um livro espírita. Trata-se de literatura brasileira da autoria do espírita Lucius e de Sandra Carneiro, estudiosa da Doutrina Espírita.
O drama dos elementos de uma família são o ponto de partida para um livro cheio de ensinamentos e conselhos que, até mesmo para quem não acredita ou segue outra religião, não deixam de instigar a uma reflexão profunda sobre estes temas.
Gostei de ler este livro e vou de certeza ler mais do mesmo género.

«Ninguém gosta de mudar, não é mesmo? Apegamo-nos firmemente àquilo que conhecemos, que nos traz segurança. O desconhecido nos fascina e nos apavora. Quando deparamos com a necessidade de nos comprometermos com a nossa mudança, com a nossa transformação, tudo se complica.»

segunda-feira, abril 11, 2005

Gostava

Gostava de ter o dom da palavra,
usar as palavras certas nas alturas certas
e com as pessoas certas.

Gostava de ter o dom da obiquidade,
estar em todos os lados sempre que quisesse,
estar com as mais diversas pessoas ao mesmo tempo.

Gostava de ter o dom da felicidade,
poder senti-la a todo o momento,
poder distribuí-la por todas as pessoas.

Gostava de ter o dom da previsão,
saber o que vai acontecer para evitar
grandes estragos e catástrofes.

Gostava...
Gostava...
Gostava...

Aniversário

Foi muito bom passar este dia contigo amiga. No meio de tantos balões quisemos levar alguns sorrisos para comemorar mais um aniversário! Acho que o dia foi bem divertido e só desejo que estejamos juntas a comemorar por muitos anos!
Mais uma vez... PARABÉNS!



Posted by Hello

domingo, abril 10, 2005

PARABÉNS

Parabéns a você,
Nesta data querida,
Muitas felicidades,
Muitos anos de vida.
Hoje é dia de festa,
Cantam as nossas almas,
Para a menina Chica Brava,
Uma salva de beijos!!!


Pelo menos há telefone e mail

Ainda hoje estava a escrever sobre a saudade que tenho e não é que do outro lado do oceano alguém sentiu saudade e se lembrou de mim. Cada vez que recebo uma chamada ou um mail fico contente. É bom saber que as pessoas nos guardam no coração e mantêm o contacto! Afinal estes dias não foram bons só para os portugueses, deixámos lembranças no coração dos brasileiros!
Obrigada Gecione. É bom ouvir a tua voz!

sábado, abril 09, 2005

A saudade não me larga

Eu sei que não devia mas... Que hei-de eu fazer se sou assim, saudosa!
Nesta página os posts sobre o Brasil já começam a desaparecer e dou-me conta que já passou quase um mês desde que entrei naquele avião com destino ao paraíso. Aqui onde estou, no meio de aulas, trabalhos e mais umas poucas preocupações o meu pensamento voa para longe... Voa para grandes praias, águas quentes, muito sol, músicas animadas, festas coloridas, noites estreladas e pessoas lindas!
A saudade aperta, as fotos trazem recordações de momentos que vivi e senti intensamente. Perdoem-me por todo este meu saudosismo mas... Deixem-me ser assim!


Pipa Posted by Hello

Quatro Meses

O meu blog faz hoje quatro meses.
Às vezes parece que já escrevo há uma eternidade. A verdade é que esta rotina diária se tornou intrínseca em mim e se não posso escrever por algum motivo, sinto falta. Apesar de ter sido criado com fins académicos este é um espaço que sinto como meu e onde posso escrever acerca daquilo que vejo, coisas que gosto muito ou que gosto menos, momentos que vivo, pessoas que gosto, músicas que me acompanham...
É muito bom ter este espaço para poder partilhar.
Sei que há pessoas bem longe que vão tendo notícias minhas por aqui e isso é muito agradável. Só espero que dure mais e mais meses.

sexta-feira, abril 08, 2005

Sou eu assim sem você

Nem sempre temos por perto quem gostaríamos de ter. Esta música é linda e ilustra bem esse sentimento com metáforas muito curiosas.


Avião sem asa, fogueira sem brasa
Sou eu assim sem você
Futebol sem bola, Piu-Piu sem Frajola
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
Vão poder falar por mim

Amor sem beijinho, buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço, namoro sem amasso
Sou eu assim sem você

Tô louca pra te ver chegar
Tô louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço, retomar o pedaço
Que falta no meu coração

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
Porquê? Pooooooorquê?

Neném sem chupeta, Romeu sem Julieta
Sou eu assim sem você
Carro sem estrada, queijo sem goiabada
Sou eu assim sem você

Por que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil alto-falantes
Vão poder falar por mim

Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo


Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo

(by Adriana Calcanhoto)

quinta-feira, abril 07, 2005

Curiosidade Mórbida

Há certas coisas no povo português que eu não suporto.
Hoje quando ia no barco ia também a fazer a travessia um senhor que se estava a sentir mal, sinceramente não sei qual o problema mas parecia ser grave tais eram as movimentações da tripulação. O senhor estava a ser acompanhado pelos marinheiros e em Cacilhas já estava à espera uma ambulância.
O episódio não é feliz mas torna-se ainda pior quando existem centenas de pessoas a querer ver e a opinar acerca do sucedido. O barco praticamente tombava para um lado porque toda a gente se deslocou para o local onde o dito senhor estava deitado no chão. Queriam todos ver e todos sabiam logo o que se passava.
Esta curiosidade mórbida que os portugueses têm pela desgraça alheia torna-se insuportável. Muitas das vezes não estão a ajudar mas sim a atrapalhar quem realmente está a fazer algo.

História

Este trabalho foi realizado no âmbito da cadeira de Seminário de Escrita Criativa e Interactiva. O objectivo é contruir uma história com base em diversas palavras começadas por «sol».


- Oliveira, ajuda aqui, acabei de partir o meu salto!, disse Fátima entrando apressada no café, cheia de sacos de compras.
- Deixa lá mulher, hoje é quinta-feira, amanhã aparece aí o Tio Joaquim com o material e arranja-te isso, responde Oliveira sem tirar os olhos do papel onde fazia as contas do mês.

Aquele era mais um dia solarengo e pacato em Outeiro Seco, aldeia transmontana mesmo na raia com Espanha. Eram já nove da noite e o sol começava a desaparecer em mais um longo dia, o maior do ano, o anunciado solstício de Verão.

Fátima tinha chegado da cidade, onde foi ao hipermercado fazer as compras para esse mês. Tinha de ser sempre assim: em Outeiro Seco apenas havia pequenas mercearias e era a Chaves que tinha de ir para poder abastecer a sua cozinha.

Agora, além de todas as preocupações que já tinha com o aproximar do Juramento de Bandeiras do seu filho Bruno, que era soldado na cidade, ainda teria de perder tempo com o sapateiro que passava na aldeia no dia seguinte para lhe solucionar aquele problema. Precisava mesmo de arranjar aqueles sapatos, porque eram os únicos que tinha para ir até Chaves. Teria de voltar à cidade mais vezes até dia 12, altura em que toda a família se ia reunir, para assistir àquele acontecimento solene.

Bruno tinha tido a sorte de ficar em Chaves, bem perto de casa. Assim, seria mais fácil reunir toda a família e faltava pouco mais de uma semana para o grande dia. Fátima, todos os dias cuidava da sua horta para que pudesse colher os legumes mais frescos e as batatas maiores. O solo daquela região é fértil e qualquer semente se dá bem e cresce depressa. Soltava os animais para que pudessem pastar e circular à vontade. Dizia que só assim seriam felizes e na hora de comer teriam um sabor ainda mais apurado.

- Rafael, anda ajudar-me com as compras! Tenho que arrumar isto tudo e ainda fazer qualquer coisa para o jantar. Larga isso e vem já, resmungou para o seu filho mais novo.
- Vou já, espera só mais cinco minutos, disse o jovem no seu jeito molengão de sempre.
- Não pode ser, rapaz, anda cá ajudar-me senão nunca mais me despacho.

Rafael tinha 20 anos, já não andava na escola e trabalhava num café em Chaves. Chegava a casa cedo. Solteiro e com bastante tempo livre, dedicava-se com grande prazer às velharias que tinha na garagem, o seu espaço preferido. Já tinha feito diversos carrinhos com bicicletas velhas, que ia juntando, mas agora dedicava-se a um projecto maior. Tinha decidido montar um carro com um motor velho que tinha em casa e algum ferro que pediu nas Ferragens do seu amigo José. Estava entretido a soldar quando a sua mãe o chamou, mas não se importou em ser solidário e ir ajudar – continuou a sua tarefa como se nada fosse.

Tinha prática daquelas coisas: desde pequeno se juntava ao seu avô na oficina e ia mexendo com todos os instrumentos que encontrava. Era a típica criança de aldeia que, depois da escola, se entretinha com as coisas que ia encontrando por casa. Para ele, mexer com diversos tipos de ferramentas era normal e fazia-o sem quaisquer problemas.

Com a máscara nos olhos e concentrado no seu trabalho de soldadura nem deu conta da entrada de Fátima na oficina.

- Eu não te disse para me vires ajudar, rapaz?, disse nervosa.
- Ó mãe podias esperar um bocado, não vês que estou quase a terminar isto, depois já vou. Não precisas de ser tão acelerada, respondeu sem a olhar.
- Tu realmente não tens remédio. Às vezes parece que te tenho de solicitar as coisas mil vezes e mesmo assim não me ligas nenhuma. Fica lá aí que eu faço tudo sozinha.

Fátima sabia que, quando Rafael se fechava na garagem, não havia muito a fazer. Dirigiu-se sozinha para a cozinha e resolveu tomar um comprimido daqueles solúveis para ver se a sua soltura passava. Andava mal da barriga desde cedo e ainda não tinha arranjado solução. A sua vizinha Solange tinha aconselhado aqueles comprimidos, que ajudavam a solidificar o seu problema.

Oliveira continuava no café contíguo à cozinha, a fazer as contas do mês, enquanto ia falando com os clientes habituais. Fátima ficou de volta do fogão a tratar do jantar. Desde pequena gostava daqueles momentos de solidão em torno das panelas. Rafael seguia solitário na garagem. E assim acabava mais um dia desta pacata família transmontana.

quarta-feira, abril 06, 2005

Divagações

Acho que ainda não consigo ter bem a noção da quantidade de pessoas que a internet faz circular, sobretudo o número de pessoas que visitam este meu blog. Confesso que às vezes até me esqueço que qualquer pessoa em qualquer parte do mundo pode ler estas minhas simples palavras. Já tive algumas surpresas com comentários de pessoas estrangeiras e até mesmo de Portugal, é nessas alturas que ganho consciência da dimensão que isto pode ter.
Tenho curiosidade em saber se muita gente que eu não conheço me visita diariamente, quem sabe há mesmo quem goste de ler o que eu escrevo, quem sabe há quem me visite uma vez e não volte nunca mais. Além daquelas pessoas que conheço e sei que me visitam todos os dias deixando os seus comentários, calculo que haja uma infinidade de outras pessoas que também me acompanham por este blog.
A todos dou as boas vindas e se quiserem deixar comentários eu vou gostar muito de ler!

terça-feira, abril 05, 2005

Sonhos Perdidos

Este trabalho foi realizado no âmbito da cadeira de Seminário de Escrita Criativa e Interactiva. O objectivo era construir uma narrativa com base num tema. O meu tema foi a imigração ilegal.


Edilson é o mais velho de cinco irmãos. Vive na pequena vila de Pipa, no nordeste brasileiro, com a sua mãe Olinda e os seus quatro irmãos: Marcelo de 15 anos, Jessica de oito, Robson de sete e a pequena Maria com cinco anos. A casa que habitam é bastante precária. Tem luz mas não existe saneamento básico e a água não é potável. Fica à beira da estrada que Edilson percorre todos os dias a pé para ir até à Pousada Império do Sol. Trabalha ali como motorista das “vãs” que transportam diariamente centenas de turistas até ao centro da vila, que fica a 20 minutos.

A maioria dessas pessoas é portuguesa, sobretudo jovens que em determinadas alturas do ano invadem aquela zona em busca de alguns dias de praia e calor. Muitos deles têm a idade de Edilson, 20 anos, no entanto, são jovens com condições de vida bem diferentes.

Sempre que os transporta, Edilson sonha com o dia em que poderá também ele conhecer outros países, outras culturas, ter uma vida melhor com estudos e um trabalho mais bem remunerado. Teve de começar a trabalhar cedo demais para poder ajudar a mãe com as despesas da casa e a alimentação dos irmãos. Nunca conheceu o pai mas o seu padrasto, Jeremias, foi assassinado quando ele tinha 15 anos; a sua irmã Maria tinha acabado de nascer e era necessário dinheiro para poderem comprar o leite. Edilson teve de largar a escola e começar a ajudar num restaurante da vila, até ter idade para tirar a carta e começar a trabalhar como motorista da Pousada Império do Sol.

Enquanto lá está tem oportunidade de conviver com os jovens de várias nacionalidades, mas é com os portugueses que se dá melhor: a facilidade na linguagem é um dos principais motivos. Pergunta várias vezes como é a vida em Lisboa e sonha com a oportunidade de conhecer essa cidade que povoa o seu imaginário.

O último grupo que esteve na Pousada era bastante efusivo e Edilson não conseguia deixar de pensar neles quando partiram. Deixaram-lhe endereços de Portugal e e-mails que resolveu utilizar para perguntar mais coisas sobre a cidade de Lisboa. Na sua mente ele acreditava que poderia conseguir uma vida melhor se fosse para Portugal trabalhar. De lá, poderia mandar dinheiro à sua mãe e, ao fim de poucos anos, regressaria com uma melhor estabilidade financeira que lhe permitisse voltar a estudar, comprar uma casa melhor e seguir vida no seu país.

Olinda não aceitou de início esta ideia. Pensar no seu filho longe de si, num país tão distante, deixava-a preocupada e com medo que algo acontecesse sem que ela soubesse. Iria ter muitas saudades daqueles olhos de mel e da sua ternura para com ela e os irmãos. No entanto, Edilson não desistiu de falar com a mãe, todos os dias conversavam sobre esse assunto e, aos poucos, ela foi aceitando melhor as ideias do filho que se mostrava muito empenhado em viajar até Portugal.

Foi no dia 24 de Março que embarcou no avião. Edilson só conhecia este transporte das imagens que via na televisão do café. Quando chegou ao aeroporto de Natal as suas mãos suavam frio, tinha dores terríveis no estômago e os olhos povoados de lágrimas por deixar a sua mãe e os seus irmãos para trás. No coração levava uma pequena alegria e sobretudo muita esperança num futuro melhor.

O seu lugar ficava na janela, mas Edilson não suportava olhar para baixo. Sentia-se demasiado alto e só via água, por isso permaneceu quieto as sete horas de voo. Não falou com ninguém, só com as comissárias de bordo à hora das refeições e para pedir ajuda com a porta da casa de banho que teve de utilizar uma vez só, porque estava mesmo aflito.

Levava consigo a única mala que o aconselharam, bem pequena e só com o absolutamente necessário. Não poderia ter muita bagagem para não desconfiarem da sua intenção de ficar a morar no país. Para todos os efeitos ele era apenas mais um turista.

Edilson está a entrar em Portugal ilegalmente, tanto que o seu voo vem via Paris. Jamais poderia apanhar um voo directo, pois seria muito complicado passar pelos serviços de imigração. Portugal legalizou muitos imigrantes até 2002 para evitar a clandestinidade. Além de tudo, foi impossível conseguir um visto de trabalho no Brasil e vir para Lisboa legal – era necessário ter conhecimentos e isso ele não tinha. Edilson era um pobre coitado da realidade nordestina no Brasil, por isso teve mesmo de arriscar.

No dia 25 de manhã chegou a Paris. Cansado do voo e com receio de ser deportado, lá seguiu caminho no meio de um grupo de turistas ingleses, até chegar à zona da Imigração Francesa. Ali não teria de dizer nada, apenas mostrar o passaporte e seguir para o voo até Lisboa.

O seu coração disparou ao entregar o passaporte...! O polícia francês verificou o documento e a passagem para Lisboa, hesitou um momento, até que finalmente os entregou de novo a Edilson. Este voltou a respirar e bem depressa seguiu as placas até chegar ao novo local de embarque, desta vez com direcção a Lisboa. A sua nova realidade estava bem mais próxima. Já tinha atravessado o Oceano Atlântico e as suas esperanças aumentavam.

Esta nova viagem de avião já foi bem mais tranquila, o seu lugar já não era à janela mas sim ao centro e as duas horas de viagem passaram depressa, tanto que até conseguiu adormecer por uns minutos.

Ao desembarcar em Lisboa, aquela sensação de aperto no coração voltou. Edilson agarrou na sua pequena mala, nos documentos e em alguns papéis com informações caso algum polícia perguntasse algo. As suas pernas tremiam mas ele mantinha os passos firmes em direcção àquilo que acreditava ser uma vida melhor. Seguiu os outros passageiros e, como tinha apenas uma mala, não precisou esperar por mais bagagem, dirigindo-se apressadamente à saída sem nada a declarar, tal como lhe tinham dito para fazer. Vindo de Paris não precisou de mostrar mais o seu passaporte e pôde entrar tranquilamente no novo país.

Quando dá por si já está na zona das chegadas. Olha para um lado, olha para o outro e vê aquela confusão de pessoas a chegar e a sair. Ele está finalmente em Lisboa. O dia está meio cinzento, quase a ameaçar chover, mas Edilson leva o coração bem quente da viagem e o corpo cheio de ideias.

Apanha então um táxi e enquanto percorre a segunda circular fica maravilhado com tudo o que vê à sua volta. Nunca tinha visto tantas casas e tão altas, nunca tinha visto tantos carros nem tanta confusão na estrada. A sua vida em Pipa era bem mais tranquila e o movimento de pessoas e automóveis era muito menor, não havia comparação possível.

O taxista deixa-o no centro da cidade, em pleno Marquês do Pombal. Aí, Edilson começa a procurar um meio de resolver a sua vida e, perguntando aqui e acolá, acaba por chegar até ao Rossio, onde se encontram dezenas de homens à espera de um emprego. São sobretudo africanos e alguns brasileiros que sabem que aquela é uma zona onde muitos empreiteiros vão procurar trabalhadores para as obras.

Edilson começa a falar com Francisco, um angolano que está em Portugal há 12 anos e que lhe explica que se esperarem ali umas horas aparece sempre alguém que os chama para trabalhar. Podem ter sorte e arranjar um trabalho de muitos meses, ou pode correr pior e ser uma obra mais rápida mas ali, de certeza que Edilson encontra trabalho.

Não era nada disto que Edilson tinha sonhado, mas sabe que está ilegal e não pode trabalhar com um contrato nem fazer descontos para a segurança social. Tem que estar sujeito ao que aparecer e o trabalho nas obras é, actualmente, o único meio para conseguir sobreviver.

Surge então uma carrinha vermelha que pára em frente deles. Francisco, mais astuto e experiente, depressa se dirige ao motorista e fica a saber que é um trabalho na margem sul: a construção de um condomínio privado, que poderá durar cerca de cinco meses. Rapidamente aceita e chama o seu novo amigo para ir com ele. Edilson, meio atrapalhado e muito nervoso, pega na sua pequena mala e segue viagem juntamente com mais oito homens que aproveitaram aquela oportunidade.

No seu canto, Edilson vai apreciando a beleza do Rio Tejo. Sente saudades da sua mãe, ainda não teve oportunidade de lhe dizer que chegou bem. Pensa também na sua terra e nos mergulhos que dava todos os dias de manhã, na praia junto à Pousada. Mas depressa procura afastar esses pensamentos, sabe que tem de ter muita força para levar adiante esta sua aventura e procura pensar que tudo vai correr bem.

Quando chegam aos Capuchos, local onde vai ser construído o condomínio, Francisco trata de explicar rapidamente a Edilson como tudo se processa. Irão trabalhar na colocação dos alicerces, primeiro passo da construção, e quanto a dinheiro, só no fim do mês receberá a sua parte. Em relação a habitação e comida não tem de se preocupar, pois ficarão nos estaleiros todos juntos.

É assim que começa o primeiro dia de trabalho de Edilson, sem ter tempo para pensar começa logo a trabalhar. A sua função era esperar que a grua trouxesse os carregamentos de ferro, baixá-los, organizar tudo e carregá-los às costas do seu jovem corpo. Depois carregava o ferro até aos homens que o moldavam para fazer os alicerces. A sua pele morena habituada ao sol, sofreu os primeiros arranhões assim que o ferro lhe tocou os ombros, mas respirou fundo e seguiu em frente na sua jornada.

Contudo, as preocupações da sua mãe estavam certas. Edilson era demasiado jovem e inexperiente. Habituado à sua pequena vila não imaginava o que era o mundo fora dali, ainda por cima num país que não era o seu. Ilegal e clandestino, não poderia esperar muitas facilidades.

Quis o destino que a sua aventura durasse muito pouco. Ainda no primeiro dia, numa das vezes em que esperava a grua, tudo correu mal. Os cabos que prendiam o ferro soltaram-se. Edilson não teve uma reacção rápida... Acabou por morrer soterrado por todo aquele equipamento.

Morria ali uma jovem vida cheia de planos e sonhos futuros. Morria ali mais uma história de imigração ilegal sem que tivesse alguém para se preocupar com ele. Ficava mais uma família sem saber notícias do seu ente querido perdido no mundo.

segunda-feira, abril 04, 2005

Fotos

Hoje publiquei finalmente algumas fotos da viagem. Se quiserem ver estão no diário que fiz de todos os dias. Começa dia 12 e acaba dia 24 de Março.
Cada foto captou momentos únicos e que serão lembrados muitas vezes. Tenho centenas de fotos e escolher apenas algumas é sempre difícil por isso fui optando por aquelas que considerei mais engraçadas.
Espero que gostem de ver ou rever estes momentos. Aqui fica mais uma.




Todos animados Posted by Hello

Glorioso

Este meu Benfica um dia mata-me do coração. Isto é que foi sofrer, ainda por cima tive de ouvir o relato na rádio sem poder ver nada, o sofrimento triplica.
Golo aqui, golo ali, ora estão a ganhar confortavelmente ora estão empatados. Mas o que importa mesmo é o resultado final e esse foi mais uma vitória para as águias!
Tenho fé!

SLB, SLB
SLB, SLB, SLB
GLORIOSO SLB
GLORIOSO SLB

domingo, abril 03, 2005

Fico triste

Fico triste claro que tenho de ficar triste.
Uma pessoa acorda cedo, vai ao Porto, regressa ao fim da tarde e vai até Sintra de propósito para comer aquela maravilha de travesseiro, chega-se à famosa «Piriquita» e...
«Desculpe mas acabaram, já não temos travesseiros.»
Fiquei com vontade de lhe saltar para o pescoço. Ninguém vai a Belém e ouve que já não há pastéis. Não se admite que deixem acabar o doce que dá nome à casa, que a torna tão conhecida. Fiquei mesmo triste porque já ia a criar água na boca desde que saí do Porto.
Bem mas o dia não foi assim tão mau: gostei do passeio, gostei de rever a Ribeira agora tão renovada, gostei ainda mais da companhia e por isso valeu a pena.
Quanto aos travesseiros, da próxima não me escapam!

sábado, abril 02, 2005

Karol Wojtyla

Há Homens que merecem ser para sempre lembrados.
Hoje faleceu o Papa João Paulo II, Karol Wojtyla, aos 84 anos e após longos dias de sofrimento.
Pode não se estar de acordo com todos os seus ideias mas tem de se reconhecer que foi um Homem cujo percurso entre nós foi de louvar, fez muito pela Humanidade e mudou a cara da Igreja Católica.
O Vaticano chorou a sua morte, o mundo chorou a sua morte e todos perdemos uma estrela no caminho.



«Ajoelhado, rogo-vos que vireis costas aos caminhos da violência e volteis aos caminhos da paz. Podeis alegar buscar a justiça. Eu também acredito e procuro a justiça. Mas a violência só atrasa o dia da justiça. A violência destrói o trabalho da justiça» - (Irlanda, 29 Setembro, 1979)

Papa João Paulo II dirigindo-se
«a todos os homens e mulheres envolvidos na violência».

sexta-feira, abril 01, 2005

Voltei a ser criança

Hoje fui com a minha sobrinha ao Jardim Zoológico. Ela tem apenas 2 anos e meio por isso quem curtiu na realidade fui mesmo eu. Sempre adorei animais e por isso é irresistível tirar imensas fotos e tocar neles todos. Acreditem que até chorei no show dos golfinhos, nem eu sei explicar muito bem porquê. A verdade é que ainda ganhei um beijinho do leão marinho e fiquei toda contente de brincar com ele uns minutos.

Posted by Hello


quinta-feira, março 31, 2005

Diário da Viagem

Resolvi publicar os posts da viagem ao Brasil, não vos queria fazer esperar mais pelas novidades de tudo o que fiz em terras de Vera Cruz. Assim que tiver as fotos que faltam eu actualizo e aviso para que possam ver as imagens.
Leiam tudo e tentem sentir a emoção que eu senti ao viver tudo aquilo. Começa dia 12 de Março e só acaba dia 24.